quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Força do Sutil



Olá aos caminhantes que por aqui passam,

Obedecendo aos meus ciclos naturais de expansão e retração, afastei-me um pouco de tudo. Poderia romantizar os fatos dizendo que foi devido a um processo consciente de reaproximação de mim mesma (como eu faria até pouco tempo atrás), mas isso seria mentira. Dei um tempo mental de tudo. Parei de pensar nos problemas, nas responsabilidades, nas ‘tarefas’ do Caminho. Por algumas curtas semanas não me obriguei a absolutamente nada. Nenhuma meditação, nenhuma leitura, nenhum nada. Mantive apenas os compromissos já assumidos e irrevogáveis da rotina a qual ainda estou presa. Tive um curto surto de produções artísticas – o que ao mesmo tempo que terminou de me exaurir, foi uma injeção de energia em mim. De certa forma sinto uma canalização, um forte desvio de minha energia aos meus corpos sutis. Isso é uma realidade corporal e intuitiva para mim – meu intelecto no entanto insiste em encontrar outros motivos na rotina agitada para esse meu novo comportamento. Não foi sem culpa que cessei tudo dessa forma. Remorsos por não recapitular sistematicamente, não calar o diálogo interno ao menos uma vez por dia foram sentimentos egóicos que me importunavam como mosquitos teimosos durante todos esses dias. A mente parece insistir em querer associar as práticas do Caminho ao conceito típico de “Disciplina” que temos em mente: rígidas rotinas. Ainda tenho muito a aprender a esse respeito – e mais ainda a recapitular.

Mas um assunto em especial me motivou a voltar a este espaço. Um tema não muito conhecido que gostaria de compartilhar – e como meu caminho cruzou esse assunto. Há algum atrás, enquanto recebia um treinamento muito especial sobre as 4 direções, descobri-me com um bloqueio forte na direção Leste, a direção do amanhecer, da primavera, da força do guerreiro pacífico, a brisa constante. Percebi que menosprezava, que rejeitava a força da sutileza, da leveza, da suavidade. De início não sabia de onde vinha esse bloqueio, mas me foi explicitado que sem resolvê-lo, não poderia receber mais conhecimento algum. Dias de auto-espreita se seguiram. Concluí então, baseado em minha auto-observação e outras lições preciosas que recebi do Espírito, que nossa cultura é em essência, uma cultura de violência, uma cultura em que a força bruta é valorizada e venerada, a opressão e a guerra são forças tão constantes que se quer as percebemos. Assim sendo, é natural que tenhamos uma dificuldade com as forças do Leste, uma força cujas raízes residem na Paz, nas virtudes pessoais, na honra e na suavidade. Lições que a cultura indígena é de longe muito mais entendida do assunto que nossa cultura ridícula de desejo e descarte. A lição do Leste foi para mim selada com os conhecimentos nas Artes Marciais, especialmente no Aikido, que significa literalmente o Caminho para o Conhecimento Pacífico (em uma das traduções possíveis). Nos treinos e instruções, tive a prova corporal de que a força bruta é facilmente derrotada perante a presença implacável do leve e do sutil quando corretamente direcionados. De repente me vi colocando no chão homens quase do dobro do meu tamanho e peso sem fazer uso de força, velocidade, ou mesmo de violência – apenas conduzindo corretamente minha energia vital através de meu corpo. Uma lição que passado o amargo inicial, provou-se suave e doce para mim.

Aos poucos, com a ajuda do aparecimento do meu animal aliado na direção Sul (a direção da criança interior), fui abrindo meu coração para perceber sem julgar os impactos das pequenas ações, a força do beija-flor, o poder das flores de pacificar um ambiente, o poder da comunicação pacífica e sincera, o poder de estar aberta a o que quer que seja. Poderes até então inexistentes para mim – ou não tão ‘eficientes’ quando as ‘grandes forças’ da força bruta e ferocidade, que eram as que eu mais conhecia. Juntamente a isso, houve um processo de identificar e aceitar em mim mesma partes suaves e gentis das quais eu antes me envergonhava ou ignorava. Isso na verdade foi um processo complementar a um processo anterior, em que eu fazia o oposto: aceitava e integrava em mim forças agressivas e violentas, ríspidas e ácidas em minhas personalidade.

Houve então um embate principal e descisivo. Eu poderia ter usado de minha agressividade para resolvê-la, mas decidi testar essa força que se apresentava para mim. Voando no balanço de um parquinho de crianças abandonado, com a ajuda do beija-flor, do bentivi, da borboleta, o povo em pé e do por do Sol, tomei uma decisão. Decidi que trataria a situação apenas com Amor. Um amor desapegado e sem fronteiras, não importava quantas convulsões meu Ego pudesse ter. Os resultados foram simplesmente fantásticos! De repente a Harmonia passou a reinar. A Paz passou a reinar. As feridas estavam curadas. A mudança foi tão drástica que eu mesma custei a acreditar em que meus olhos viam. Creio que muitos já vivenciaram experiências como essa, provas da força da Intuição e da gentileza (e convido-os a compartilhá-los também).
Passados alguns dias do ocorrido, lembro-me de algumas técnicas que esbarrei na vida afora... Uma sequência misteriosa de frases, que eu não me lembrava direito, mas pareciam ser muito poderosas... Alguns cliques em sites de busca e logo descobri uma filosofia inteiramente nova para mim, mas milenar para os xamãs havaianos: o Ho’oponopono. Inicialmente pode parecer uma linha desconexa com a implacabilidade dos conhecimentos toltecas, mas quando li esse texto, disponível para download na internet no site oficial mundial da filosofia, não pude deixar de traçar paralelos com a recapitulação. Segue um trecho:

 O intelecto não dispõe dos recursos para resolver problemas, ele só pode manejá-los. E manejar não resolve problemas. Ao fazer o Ho’oponopono você pede a Deus, a Divindade, o Universo, o Tudo que HÁ, a Força Superior (conforme você concebe e entende essa Força) para limpar, purificar a origem destes problemas, que são as recordações, as memórias. Você assim neutraliza a energia que você associa à determinada pessoa, lugar ou coisa. No processo esta energia é libertada e transmutada em pura luz pela Divindade. E dentro de você o espaço que foi liberado é preenchido pela luz da Divindade. Então, no Ho’oponopono não há culpa, não é necessário reviver sofrimento, não importa saber o porquê do problema, de quem é a culpa, sua origem. No momento que você nota dentro de si algum incômodo em relação a uma pessoa, ou lugar, acontecimento ou coisa, inicie o processo de limpeza, peça a Deus:

“Divindade, limpe em mim o que está contribuindo para este problema.” Então use as frases desta sequência: “Sinto muito. Me perdoe. Te amo. Sou grato.” várias vezes, você pode destacar uma que lhe toca mais naquele momento e repeti-la. Deixe sua intuição lhe guiar.
Quando você diz “Sinto muito” você reconhece que algo (não importa se saber o que) penetrou no seu sistema corpo/mente. Você quer o perdão interior pelo o que lhe trouxe aquilo.
Ao dizer “Me perdoe” você não está pedindo a Deus para te perdoar, você está pedindo a Deus para te ajudar se perdoar.
 “Te amo” transmuta a energia bloqueada (que é o problema) em energia fluindo, religa você ao Divino. Ela contém os três elementos que podem transformar qualquer coisa: gratidão – reverência – transmutação.
“Sou grato” é a sua expressão de gratidão, sua fé que tudo será resolvido para o bem maior de todos envolvidos. A partir deste momento o que acontece a seguir é determinado pela Divindade, você pode ser inspirado a tomar alguma ação, qualquer que seja, ou não. Se continuar uma dúvida, continue o processo”
[fonte: www.hooponopono.ws]

O trecho em negrito em especial muito se assemelha à ideia de ‘entregar a experiência à Águia’, e recuperar nossos filamentos de energia perdidos. Abdicamos de tentar entender as coisas racionalmente, de atribuir culpas e julgamentos e nos focamos em resolver o problema: em nos desvincilhar e transmutar a energia bloqueada a fim de recuperar nossa energia e seguirmos livres. Essas quatro frases acalmam o Ego. Não o matam, não o violentam, apenas o colocam em seu lugar natural, longe das perturbações da mente que o fazem surtar constantemente. Além disso concedem a Liberdade através do perdão verdadeiro e profundo do que quer que esteja causando o problema ou o bloqueio. É olhar para nossas feridas e dizer: não importa o que causou isso, eu vou curar, e vou curar agora. É uma proposta sem dúvida similar à Recapitulação. A única coisa que sinto falta nela é uma pitada de humor e rir de si mesmo, mas nada impede de inserirmos uma quinta frase: “Quanta bobagem!” ou algo do tipo sahusahusahusahu

Piadas à parte, experimentei esta noite uma meditação profunda com essas frases. Todos os pensamentos que me apareciam eram ‘abençoados’ com esses quatro pensamentos. Eu sentia em minha energia, blocos de energia saindo de meu peito em formatos circulares, uma maior e colada à anterior, formando uma pirâmide circular que se edificava de meu peito para cima. A sensação era de um grande peso sendo tirado de minhas costas fisicamente falando! Sentia até o ar circulando mais livremente pelo meu peito. Como resultado, após dizer a frase algumas vezes, os pensamentos não faziam mais sentido. Por exemplo, se pensava em uma pessoa da qual tenho mágoas juntamente com um sentimento de ressentimento e tristeza, após algumas repetições, eu me pegava perguntando “Nossa... Por que estou pensando nessa pessoa? Que estranho...”. A carga emocional vinculada a ela tinha sido liberada. Muito semelhante à recapitulação. Outras vezes, a imagem simplesmente sumia, e qualquer outro pensamento se recusava a se formar, atirando-me a um implacável silêncio interior! Em poucos minutos, parecia que eu estava sob efeito de alguma planta de poder. Alheia ao mundo, meio ‘lesada’, ‘brisada’, incapaz de formular qualquer pensamento racional típico.

Pretendo a partir de agora experimentar aliar os processos de recapitulação ao Ho’oponopono. Uma aliança entre dois conhecimentos ancestrais irmãos: o xamanismo tolteca, e o xamanismo havaiano. Espero poder compartilhar em breve os resultados. Independente do que sejam, descobri nessa filosofia, uma chave poderosa para liberação de bloqueios de energia emocional. Afinal, tudo vale a pena quando a alma não é pequena, não é mesmo?

Me perdoe. Sinto muito. Te amo. Sou grata. (qta bobagem! hahusahuuash)

Intento!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Dança como Portal




Sempre que me apresentava, sentia como se não fosse mais eu mesma dançando na maioria das vezes, mas sim alguma outra força que entrava em 'sintonia' absoluta comigo e eu me tornava uma espectadora de meus próprios movimentos... Às vezes era uma força mais animal, ancestral... Outras vezes era algo tão sutil e sublime que eu não conseguiria classificá-la como humana, animal, ou qualquer outra coisa do tipo...

Uma experiência em especial me marcou muito... Tdo aconteceu mto de repente. Eu vi uma apresentação simplesmente divina na sexta e recebi um convite pra dançar numa mostra no sábado. Nunca tinha apresentado uma performance de Tribal Fusion antes, não tinha nem roupa... Apesar da minha experiência com a Dança do Ventre, só havia feito 2 aulas de tribal em toda minha vida, e aprendido de forma auto-didata o resto, que não era muito. Tinha já uma idéia de duas músicas que queria dançar, e preparei duas coreografias. Fiz um mega improsivo de roupas que eu já tinha, com minhas bijouterias, com umas penas... Eu não sabia nem mesmo como iria ao evento! Não tinha carona, não tinha ônibus (era em um lugar MEGA afastado, numa chácara em uma cidade vizinha), não tinha nem CD virgem pra gravar a música! rsrs... Ainda assim pensei 'vou preparar essa coreografia e o resto o Universo se encarrega. Eu só tenho que fazê-la que o resto vai se arranjar'. A 40 min da mostra começar, ainda não tinha nenhuma confirmação de nada. Mesmo assim me mantive firme, e fui já arrumando o que precisaria pra me apresentar. Eis que sabendo de minha situação, uma grande amiga minha liga, me dizendo que conseguiu um jantar com um cara que era a fim dela para nós duas (vai vendo as idéias da mulher... sahuasuhashu) e que em seguida ele nos levaria pra mostra.Ou seja, ela se faria de interessada nele para que nós tivéssemos carona! kkkkkkkkk... (essa minha amiga tem mania de se fazer de interessada nos caras pra obter esse tipo de benefício como restaurantes, viagens, etc... Mas nunca fica de fato com eles.)
Arrumei minhas coisinhas e pela primeira vez em mto tempo, saí sem meu namorado da época, que fez uma biiirra danada pra eu não ir (não que ele fosse passar o sábado a noite comigo, lógico, mas ele prefiria saber que eu estava 'segura' em casa... ¬¬'). Ouvi todo o chororô com um sorriso de Ave Maria no rosto, a carona me esperando e o figurino na mão. Fiz um 'tchauzinho' com a mão, dei as costas e saí sem dizer uma palavra... rsrs... Parecia que naquele dia eu estava 'possuída' por alguma força extra que se encarregava de minhas ações... Fomos jantar - em outra cidade - em um restaurante chiquérrimo (o cara queria impressionar... E a minha amiga podia ser muuuuito convincente em seu teatro... sahusahusahu), e como se não fosse o bastante ainda deixou implícito que uma 'moça linda como eu' jamais deveria sair desacompanhada... ¬¬' Com uma esquiva sobrenatural e graça que só as mulheres têm, deixei claro pra ele que minha amiga era o alvo na noite, não eu. Minha amiga gostou de não ter mais concorrência em seu teatro, e finalmente após ele pagar a conta toda sozinho, ignorando meus protestos, fomos pra tal chácara.

Chegamos lá de madrugada, umas 2h da manhã. De repente uma onda de insegurança me gelou... Haviam umas 40 mulheres, dançarinas, todas trajadas impecavelmente no Tribal, conhecedoras de toda a técnica, fazendo aulas na escola que organizava o evento, todas em suas 'panelinhas' respectivas... E de repente chegava eu com minhas roupas improvisadas metida a conhecedora do assunto... Com o coração na boca, fui até à fogueira de uns 2m de altura que queimava no quintal, onde uma das dançarinas acabava de sair, após uma dança "à dois" com a fogueira, e pedi coragem ao fogo. Lá eu soube que o que estava em jogo era muito mais do que apenas uma dança... E soube qual as duas músicas dançar...

Luzes, música, ação! O suor frio, a insegurança depois de anos foras do palco, os pensamentos voladores fazendo a festa com minhas inseguranças... Até que 'bum!' a música fazia sua chamada... Todos os meus pensamentos se calaram de repente. Meu corpo simplesmente respondeu sem que eu ordenasse. Agora, ele não pertencia mais ao meu 'eu' de sempre... E eu não me preocupava em recuperá-lo... De repente não havia mais distinção entre eu, o ar que me envolvia, o Som, as luzes ou mesmo as pessoas do lugar. Lá pelo décimo segundo, eu já não era mais eu mesma. Apenas uma lembrança remota da minha essência ecoava naquele momento entre as luzes e os sons... entre as pessoas e o ar... entre o silêncio absurdo da noite e a Lua Cheia lá em cima... Eu podia tocá-la naquele momento se quisesse... Eu simplesmente me dissolvi completamente por 4 sublimes minutos... Sentia-me sob a influência de uma energia sutil, uma energia que precisava se expressar nessa realidade que vivemos, mas que precisava de um 'portal' para isso... Naqueles movimentos, eu fui aquele portal. O que restava de minha consciência se conectou com essa energia, e em uma simbiose poética, dançamos juntas... Com um corpo humano feminino disposto, essa energia podia manifestar-se. E eu com ela, por um dia, aprendi a preciosa lição da Implacabilidade nos aspectos da minha vida que mais me afugentavam para longe dos palcos naquela época... Um a um eu passava por esses obstáculos, como se eles fossem pequenas pedrinhas no chão para então recuperar uma parte preciosa perdida de mim: minha Arte.



(Peço desculpas pela falha técnica, a câmera decidiu pifar bem no meio da apresentação, e o vídeo ficou cortado...=/ )

Como resultado, obtive uma dança mediana em termos técnicos - algo que nos dias seguintes me trouxe alguma insatisfação boicotadora. Hoje vejo isso com outros olhos... Vejo que o importante foi que, naquele momento, eu senti em meu corpo, que todos que estavam ali, mesmo não entendendo de dança, como o paquera da minha amiga, e os seguranças, foram asborvidos pelo momento. Eu senti em meu íntimo que passei algo àquelas pessoas, para cada um, uma coisa, mas algo foi dito - algo de impacto - e hoje vejo que é isso que importa pra mim verdadeiramente. Creio que em algum lugar além dos egos e indústrias da Arte, seja isso que importa... E ao longo da História podemos perceber o quanto que ela se mantém resiliente, como ela ainda consegue florescer em meio à toda essa podridão que a cerca... Silenciosamente... Implacavelmente... Nos assaltando quando nos mostramos merecedores...

Após a apresentação, diversas pessoas vieram conversar comigo a respeito. Uma delas inclusive declarou ser visto um vórtex de energia descendo do céu até o palco como um furacão, e veio conversar cmg sobre a importância de resgaar o aspecto ritualístico da dança hoje em dia... Na época tudo que ela me dizia me soava completamente absurdo e papo de pirado...rsrs... Hoje no entanto recorro às palavras daquela outra dançarina quando preciso de uma força em minhas ações irracionais... E recorro às sensações daquela madrugada de Dança quando preciso me reencontrar comigo mesma...

Intento!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Poder do Silêncio Interior



"Era um fim de tarde de quase-primavera. Após horas de produtivas discussões intelectuais, direcionadas a um conhecimento mais verdadeiro e mais humano da realidade através de uma ciência sempre tão fria, era hora da celebração. O aniversário de dois dos integrantes do grupo era motivo mais do que suficiente para saborearmos aquele delicioso bolo de chocolate juntos. Futuras-mamães conversando de igual para igual com jovens doutores sobre espiritualidade, alunos de graduação contando suas experiências (des)amorosas para professores, nem mesmo a faxineira ficou fora da festa, e compartilhava receitas caseiras com uma advogada famosa que tinha acabado de chegar de São Paulo. O Sol poente iluminava a musa repleta de quitutes quase criminosos de tão bons, os sucos naturais frescos e os pequenos arco-íris que se formavam na parede dos copos de vidro. No teto, os reflexos da piscina dançavam serenos, convidando a todos a sua hipnose... Até os cachorros participavam da festa, mãe e filha, brincando empolgadas nos fundos, no auge de sua selvageria e inocência. 

Eu, me balançava na rede pendurada entre os pilares, só observando tudo aquilo. Meus joelhos eram massageados pelo vai e vem que eu fazia quase sem esforço naquela posição semi-deitada... Interagir de qualquer forma significaria deixar de perceber alguma coisa desse Todo maravilhoso que me cercava... Eu simplesmente não queria alterar nada naquele ambiente e nem perder uma partezinha se quer daquele momento. Foi então que eu de repente percebi: "Tudo está no jeito que deveria estar. Sempre está.". Uma verdade tão piegas, mas ao mesmo tempo tão arrebatadora que me jogou numa paz de espírito sem fim, um estado que as palavras não conseguem alcançar para descrever. Quando dei por mim, notei que fluía uma energia do meu peito, uma energia leve, serena... Uma sensação sem origem, nem destino, que fluía em todas as direções. O mais parecido que consigo descrever é como um amor tão sutil quanto o cheiro de um perfume... Sem motivo ou objetivo. Era apenas algo que fluía. Fiquei por minutos inebriada por essa sensação. Não sentia-me como corpo, não sentia onde eu começava e onde eu terminava. Não sentia barreiras entre eu e todo o resto. Apenas uma remota lembrança corporal impedia que eu me dissolvesse no ar...

- Vai querer bolo?

Foi então que percebi... Meu diálogo interno havia cessado, emudecido totalmente sem que eu ordenasse. 

- Vou sim, obrigada...

Senti então meu corpo novamente, porém imerso em serotonina. Aos poucos, bem lentamente, eu voltava a minha percepção rotineira... Minha mente quase muda, meus cinco sentidos cristalinos... Visão, audição, olfato, tato e paladar... Nunca provei um bolo de chocolate mais delicioso em toda minha vida..."


terça-feira, 3 de julho de 2012

A Árvore

(Parque do Mirante, Piracicaba - SP)


Saímos para andar. Eu tinha planos que ele não sabia . O por-do-Sol nos encontraria no mirante da cidade, o rio cantaria o morrer do dia e dançaria para nosso deleite – e para a surpresa dele. Ou assim eu esperava. O mirante era mais longe do que eu calculava e assistimos o por-do-Sol em uma praça vazia da cidade, para depois seguirmos ao nosso destino. Era uma região inexplorada para mim, e um lugar tão belo que desconhecia existir tão perto da minha casa. A Lua abençoava nosso passeio, cheia, plena e absoluta em uma noite estrelada. O rio cantava implacável, furioso, cheios de quedas d’água, de armadilhas para os peixes. Terra “onde o peixe para”... Não via nenhuma maneira de qualquer coisa parar em uma enxurrada daquelas – nem de sobreviver. Ainda assim, uma árvore no meio da correnteza afrontava a fúria do Rio com seu tamanho e sua copa florida. Seguimos andando pelo lugar. Um parque tão perto do centro de uma cidade, tão lindo e tão deserto era pra mim impossível de conceber. Apenas um ou outro casal de amantes se surpreendiam com nossa chegada – e logo voltavam ao que estavam fazendo ao perceber que era um outro casal que se aproximava. Conforme andávamos, até mesmo os amantes esporádicos sumiam, dando lugar a um enorme espaço vazio, o Engenho Central, utilizado frequentemente para grandes eventos regionais, shows, exposições de arte. Naquela noite, porém, ele estava vazio, deserto, e ainda assim aberto. Explorávamos o local com curiosidade, protegidos pelo som do implacável rio, e pela luz da Lua. Eis que no meio de um mar de chão cimentado erguia-se uma impotente árvore, que crescia na diagonal, quase que na horizontal por uma grande extensão, até retomar sua direção apropriada, o céu, e criando uma gloriosa copa, habitada por formigas e vegetais menores, que se enraizavam nos vincos de seus troncos. Uma outra árvore menor, que crescia reta para cima, sustentava um quadro de força e alguns fios elétricos, e lhe fazia companhia naquele parque cinza e deserto. Contemplei-a por alguns momentos e saí andando em direção ao Rio e à linda paisagem das luzes da cidade, do outro lado da margem. Quando olho ao redor, meu companheiro havia sumido. Apenas um momento sombrio na copa das árvores indicava onde ele estava. A aproximadamente 2 metros do chão, ele se sentava no tronco da grande árvore, e apoiava suas costas na parte vertical do tronco. De longe parecia a visão de alguma criatura mística de um bosque como um duende ou um fauno, que sorria pra mim na penumbra. Fui em direção à árvore. Eu estava usando um vestido longo, quase na hora de sair troquei-o por uma calça jeans, mas algo me impediu. Teria que subir a árvore de vestido mesmo. Tirei os chinelos, e descalça comecei a escalar, ou melhor, andar pela árvore como um quadrúpede.

Quando cheguei a mais ou menos um metro e meio do chão, estacionei. Congelei. Travei.

- Venha... Vamos... – ele me dizia

- Não não... Aqui tá ótimo! – eu respondi paralisada.

O que é que eu estava fazendo?! Uma queda daqui em um chão de cimento desses poderia me quebrar um braço ou perna facilmente. Que estupidez! Ainda mais de vestido! Eu estava louca! O tronco era bem horizontal, porém era estreito demais. Seria muito fácil cair ali. Um pavor, pânico irracional me invadiu o corpo. Eu sentia meus músculos travados onde estavam, e tinha a nítida sensação de que qualquer movimento que eu fizesse, cairia no chão. Era uma altura pequena demais para se temer, mas mais do que o suficiente para me machucar. Independente de ter um fundamento racional ou não, esse pânico tomou conta de mim. Só desejava que alguém me resgatasse de lá o quanto antes.

- Qual é... Vem cá – ele se levantou no tronco e em pé, caminhou até mim.

- Cuidado! Você vai cair! – eu gritei.

- Num vou não...Olha só.. É simples... O tronco é largo o suficiente. - ele andava de um lado pro outro no tronco, como se estivesse andando no chão.

- Não pra mim! Eu não estou acostumada!

- Ahhh Qual é... Você sempre adorou altura... Lugares altos... Grandes paisagens... Vamos lá... Eu te ajudo.

Eu precisava me acalmar. Todo meu corpo tinha entrado em estado de perigo eminente. Eu mal conseguia controlar minha respiração. Meu coração batia mais rápido do que eu podia contar, eu suava frio. Ao mesmo tempo, a ideia de estar lá no topo da árvore me fascinava, a própria ideia de subir na árvore me fascinava. Eu queria continuar. Havia algo muito profundo em mim que me impelia a seguir em frente. Além disso, eu sabia o medo era o primeiro inimigo. Seguir em frente mesmo com ele era o desafio. E eu não podia me dar ao luxo de perder uma oportunidade de vencê-lo. Mas tudo parecia tão hostil... Tão alto... O chão tão distante e tão duro... O tronco parecia tão estreito e inseguro. Todo meu corpo me travava naquele ponto e não queria sair.

- Calma! – eu disse – Preciso de tempo.

- Eu não estou com pressa...

Não. Eu subiria aquela árvore. “Não sei porque estou tão apavorada desse jeito, mas esse pavor é real, e eu vou superá-lo”. Comecei tentando controlar minha respiração, em seguida relaxando os músculos – eles pareciam traumatizados pela tensão. O relaxamento induzido me dava uma sensação de anestesia, e ao mesmo tempo meus sentidos nunca estiveram tão aguçados. Pedi ajuda para a árvore mentalmente. Pedi para que ela me fixasse em seu tronco. Ela parecia responder que me ajudaria, com uma gentileza quase maternal. Procurei um lugar para apoiar meu joelho – eu daria o primeiro passo. Quando encontrei um lugar seguro, entre pequenos sustos de pisar em falso, e o medo como um todo quase me esmagando, alternei meu peso. Eu estava ganhando movimento de novo.

- Iiiissso... Pode vir... Está indo muito bem.

Tentei dar mais um passo, porém o vestido me impediu. Gelei. Todo o medo parecia ter voltado com ainda mais intensidade que antes. Meus músculos estavam travados novamente.

- O vestido! – eu gritava – Tá enroscando... me ajuda!

- Pronto, tirei... Muito bom... Agora continua...

Mais uma vez fiz todo o processo para me acalmar. Continuei até a metade. Ele andou até o final do tronco, onde estava antes, e disse

- Agora venha até aqui sozinha. Você não precisa mais de mim.

O tronco agora era ainda mais estreito, e a altura maior. Mas ele tinha razão. Eu precisava terminar isso sozinha. Estava tão nervosa que minhas mãos tremiam.

- Aqui tá bom já... Vem aqui.

- Não, você consegue, vai... Você é capaz.

Ele tinha razão. Eu precisava superar isso. Eu queria superar isso. Não podia deixar o medo me paralisar dessa forma. Segui, segurando o vestido, passinho por passinho, encontrando pontos seguros para me apoiar, e esquecendo da altura. Minhas mãos ainda tremiam. Eu ainda suava como se estivesse em uma sauna. Mas andei. Passinho por passinho. Gritando, grunhindo, ofegando, palpitando. Tentei esquecer tudo isso. Pensar apenas no movimento. Apenas na árvore, que me queria bem. Até me apoiar finalmente dos braços dele.

- Aháaa!! Sabia que vc conseguiria! Proonto.. Chegou! Tá vendo? Você conseguiu... – ele ria contente como se eu tivesse conquistado algo muito precioso.

Eu mesma disparei a rir. Mais de alívio do que de alegria no começo. Depois foi um riso de deboche de mim mesma... Tão amedrontada! Era como se a adrenalina me induzisse a rir como uma trouxa. Sentados ali, e rodeada por ele, eu me sentia mais segura, mas não completamente. Coisa que ele sem dúvida explorou, me mostrando que mesmo pendendo para os dois lados, ainda continuávamos ali em cima – uma demonstração que sem dúvida me desesperou novamente. Depois que nos acalmamos (eu do meu pânico, e ele de seus risos), reparei no poder daquele local. A mistura do lugar deserto, a altura, o rio correndo e a Lua cheia brilhando eram uma combinação maravilhosa que inebriava os sentidos. De repente eu tomava consciência de um lado animal meu, e ele estava muito feliz...

Porém nossa meditação foi interrompida. Um homem tinha decidido fazer sua caminhada na calada na noite, contemplando o rio e passando a poucos metros da árvore.
“Estamos invisíveis” ouvi ele sussurrando em meu ouvido.
Intentei que realmente ficássemos imóveis, invisíveis, nas sombras. O homem seguiu seu caminho sem nos notar.

- Acho que deveríamos ir – eu disse.

- Então vamos – disse ele, ficando em pé no tronco.

- Cuidado! - eu sentia meus músculos gelando de novo.

- Relaxa... tá de boa.. Vamos... Fique em pé também.

- Tem certeza?

- Claro...

Peguei em sua mão e aos poucos fui recuperando minha natureza bípede. Dei alguns passos, lateralmente, mas não me sentia tão bem quanto ajoelhada. Segui, passinho por passinho, mais uma vez. O medo ainda era o mesmo, porém eu me sentia mais preparada pra ele. Chegando em um ponto baixo da árvore, onde já era possível descer, ele pulou e me estendeu a mão pra me ajudar. Mas algo em mim não queria mais descer dali. Pra que descer? Se eu posso ficar aqui em cima? Meu companheiro riu de mim. Tão assustada antes, e agora não queria descer...

- Eu sabia que você ia gostar... – ele disse, para nosso riso.

Eu me encolhi, com os braços ao redor dos joelhos, sorrindo, respirando fundo, ainda com resquícios de meu nervosismo. Após agradecer a árvore, desci.
Nós dois ríamos como idiotas. Dessa vez foi de felicidade... Como eu estava assustada! Olhei para a árvore... Era ainda mais alta vista de baixo. Voltamos a andar pelo deserto cinza ao redor, olhando para o rio... depois de um momento de contemplação eu lhe disse

- Não sei porque fiquei tão insegura... Eu nunca soube subir em árvores, mas...

- Ah, não? – ele em interrompeu dando um olhar no fundo dos meus olhos de gelar a barriga – Claro que sim! Você sempre soube, Jessika, e isso quase te matou! Quase te estrangularam por causa disso! Por isso eu insisti tanto para que você fosse.

Eu estava perplexa. Ele tinha razão.

Quando eu tinha cerca de 7 anos, em uma festa de família, eu como sempre, estava subindo em uma antena de alta tensão no quintal de minha casa. Eu sabia escalar aquela antena há muito tempo. Ela seguia no mesmo padrão de montagem até lá em cima, com uns 10 metros de altura. Eu sonhava que um dia eu pudesse escalá-la até o fim, já que a lógica da escalada era a mesma desde a base. Porém nunca passei os 2 ou 3 metros, quando algum adulto sempre me proibia de continuar. Nessa festa, porém, quando cheguei a uns 2 metros, meu tio, furioso por eu ter desobedecido sua ordem de não escalar, me arrancou do poste. 

Na minha cabeça, aquilo era somente mais uma de suas brincadeiras, sempre muito brutas e divertidas, e 
gargalhava. Não percebi o quanto estava bravo comigo. Ele então pegou-me pelo braço, me arrastou até a cozinha, longe do olhar de todos, e prendeu-me na parede pelo pescoço, tirando meu ar.

- Nunca mais você faça isso, me entendeu? – seu rosto estava tão próximo ao meu que quase se encostavam. Seus olhos refletiam um ódio absurdo que nunca tinha visto antes. Seu hálito de cerveja e churrasco.  A brutalidade da cena me deixou chocada. Eu sempre tinha confiado e admirado meu tio. E de repente uma violência dessas...

Em seguida, ele me largou, sentou-se numa cadeira, com a cabeça apoiada em uma das mãos. Estava profundamente arrependido e abalado por ter feito aquilo comigo. De repente ele caiu em si. E então saiu bufando da cozinha. Enquanto isso eu me encolhia entre os balcões e a parede, soluçando de chorar, apavorada, feliz por respirar de novo. Por vários instantes eu achei que nunca mais faria isso...

Toda a cena se passava em minha mente naquele lugar, com o rio correndo, o vento soprando e a Lua lá cima, de testemunha... Eu tinha ficado zonza por lembrar... Desde então nunca mais tinha escalado absolutamente nada, nem se quer os braços dos sofás (onde costumavam ser meu lugar favorito de estar) e nem mais procurei meu tio pra brincar como antes. Depois daquele episódio, que foi lembrado por mim com um terror absurdo durante a Recapitulação, eu nunca mais conseguira ser a mesma “menina-macaca” de antes. Pelo contrário, o principal fator que me influenciou depois daquilo era minha rígida escola e suas maneiras. Uma instituição que nasceu e cresceu para formar “homens e mulheres educados para liderar a sociedade”. Para mim, era como a esperança de nunca mais fazer nada de errado – para nunca mais ter que encarar um homem me estrangulando daquela forma novamente...

Mesmo meu relacionamento com meus pais nunca mais foi o mesmo. Sentia-me entristecida e talvez até traída, com a sensação de que meu pai deveria ter me protegido, mesmo tendo consciência de que ele não sabia do ocorrido. Senti-me grata por passar a maior parte do tempo com minha mãe – já que meu pai viaja muito a trabalho. Na minha cabeça, depois daquele dia, as mulheres era as únicas que não podiam me machucar. Os homens, sempre agressores em potencial. Ainda confiava plenamente em meu pai, porém sabia que se quisesse, ele também poderia me machucar. Estava selado em mim, o pacto silencioso de dominação do masculino sobre o feminino, que todos de nossa sociedade acabam selando cedo ou tarde...

Tudo isso se passou pela minha cabeça naquele deserto cinza. Por isso aquele pânico todo em escalar uma arvorezinha... Aquilo sim era minha natureza de verdade... Aquilo sim era parte inseparável de mim... E as lágrimas que escorriam ajudavam essa parte esquecida de mim a se reintegrar ao seu lugar de direito.
Olhei novamente para árvore. E ela olhou pra mim. Como se lesse minha mente, ela me convidou, me desafiou novamente. “Não permita!” ela me sussurrava... Mas eu não permitiria... Não permitiria a mim mesma acreditar que não podia... Nunca mais! Saí andando em direção à árvore. Tirei meus chinelos, segurei o vestido. Andei como um jaguar até metade de seu longo tronco. O mesmo pânico de antes me assaltou. Paralisei. Olhei ao redor. Meu companheiro me observava imóvel. Olhei para a árvore novamente. Nada me pararia. Era uma questão de honra agora. Se eu descesse, senti que era como se estivesse jogando essa parte de mim fora – só que dessa vez, para sempre. Concentrei-me na árvore novamente. “Agora somos só eu e você, minha cara”, pensava eu. O mesmo tremor, o mesmo suor frio... Só que dessa vez eu sabia de onde vinham. Porquê estavam ali. Mas meu objetivo era maior. Da metade da árvore em diante, eu andei lentamente como antes... Passinho por passinho... Até chegar no final, onde a árvore tornava ser vertical. Apenas ter me sentado ali já bastaria, mas não. Eu queria ficar em pé. Posicionei os pés onde eles mesmos escolheram ficar – de repente eu voltava a saber como ouvir o meu corpo – e lentamente fui me reerguendo. Cada centímetro, uma conquista. Até que tinah voltado ao meu estado original – de pé. Inteira. No topo da árvore. Algo em mim se mexia, se contorcia. Morria. Eu, recuperava minha vida. Recuperava um pedaço de mim. E num misto de felicidade e fúria, soltei um rugido de vitória. “Nunca mais... Nunca mais...”.

Meu companheiro, de longe riu de alegria comigo. Ele tinha visto o pavor em meus olhos e agora via minha (re)conquista. Morria uma menina assustada e indefesa. Preocupada e rígida. De repente, eu ganhei um mundo novo. Se antes eu tinha o mundo do chão, agora tinha o mundo das copas das árvores novamente. Um mundo que sempre tinha sido meu, um mundo ao qual eu sempre pertenci – e que foi roubado de mim. Reconquistei também algo tão valioso quanto: a confiança em meu próprio corpo. Quando deixei que ele decidisse sozinho, percebi que ele sabia muito mais do que eu. Meu companheiro, o rio, a Lua, o Vento e as estrelas eram minhas testemunhas. Eu estava só começando... E começava de saia!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Eles mentiram




Eles disseram que eu não podia.
Eles disseram que eu não conseguiria.
Eles disseram que eu não era capaz.

Eles mentiram.

Eles disseram que eu cairia
Eles disseram que eu me quebraria em mil pedaços
que nunca mais poderiam ser reconstituídos.

Eles mentiram.

Eles disseram que eu não deveria
Porque a vida real não era feita de Sonhos nem de Magia
Mas sim de matéria, de fome e de dinheiro.
Eles me disseram que seria impossível.
Porque ninguém se interessa pelo o que não lhes beneficia egoisticamente.

Eles mentiram!

Eles disseram que eu sofreria
Se continuasse a acreditar
Que a utopia valia a pena, mesmo se a Alma não fosse pequena
Que a Natureza seria salva - ou que ela era maior do que nós.
Eles me disseram que eu deveira me conformar
Que a vida é dura e difícil, que as conquistas são dolorosas
Que o preço da realidade é o sonho, e que os sonhos nos custavam ainda mais caro.

Eles estavam enganados.


Eles me disseram 
Que as mulheres sempre corriam mais perigo
Porque eram belas e frágeis como a flor
E indefesas e vulneráveis como nada na Natureza é.
Eles me disseram 
Que com um bom homem eu estaria segura. Que eu estaria protegida.
Dos outros homens (aqueles que nos aguardam armados à noite, nas ruas vazias)
que gostam de devorar mulheres - e que eles estavam em toda parte!
E que caso isso acontecesse, eu estaria perdida para sempre
E que as mulheres devoradas nunca mais se recuperam das violências que lhes infringem.

Mentira! Mentira! Mentira!


Eles me disseram
Que era importante me preparar para ser uma das Escolhidas
que conseguiam galgar a sua gloriosa independência
produzindo sem questionar ou criticar 
para os poucos que detinham o Poder de pagar um salário.
Eles me disseram
Que aí então eu seria feliz
Porque compraria minhas próprias roupas, realizaria meus próprios desejos
Sem depender de nada ou de ninguém. E então eu seria livre.

Mentira maior nunca foi contada!


.
.
.

NÃO.

Eles mentiram - porque eu consegui.
Eu fui pude. Eu fui capaz.
Sim, eu caí, mas me levantei, me regenerei como um vegetal,
e continuei caminhando como um animal na selva - de pedra.

Eles mentiram - A Magia está aí para quem quiser vê-la.
A realidade depende dos Sonhos.
E não há Ego maior do que nos sentirmos incapazes!

Mas, justiça seja feita: Eles estavam certos quanto à Utopia.
Disseram que eu sofreria.
Eu sofri - não por dificuldades de trazê-la à luz.
Isso foi simples, no fim das contas...
Mas sim porque um dia acabei acreditando neles - e me esqueci dela.
Escuridão maior jamais se fez em minha vida.


Também estavam certos sobre as mulheres serem belas.
Mas sobre elas, só estavam certos sobre isso.
Pois nada na Grande Mãe é incapaz de ferir
E todo homem conhece no seu Coração o poder de ferir que as mulheres têm.
Eles mentiram: os homens que gostam de devorar mulheres não estão nas ruas escuras e vazias.
Nas ruas escuras e vazias estão os amantes proibidos!
Estão os perdidos, e os que não têm casa para voltar.
Os homens que gostam de devorar mulheres estão nos holofotes, nas câmeras,
espalhando por aí que as mulheres são coisas que não são.
Eles também mentiram quando disseram que as mulheres nunca mais se recuperam.
Mentiram tanto, tantas vezes, que fizeram a própria mulher esquecer que a cada Lua que passa,
Ela nasce, germina, desabrocha, decai, morre e renasce.
Assim é a natureza da mulher - de toda fêmea.
E não há nada que ela não possa regenerar.


E mentiram de novo: comprei minhas próprias roupas.
Com meu próprio dinheiro. Ainda assim, não fui feliz.
Até fui uma das Escolhidas - acreditem se quiserem!
E não fui independente.
Na verdade, "liberdade" nunca esteve tão distante.
Escolher, na volta do shopping, o que levar para casa.
não anulava  minha tristeza em não escolher o que deixar para o mundo, quando saía de casa.
Continuei dependendo do abençoado desconhecido que plantava minha comida,
da anônima camareira que trocava meus lençóis durante o dia de trabalho,
do glorioso Sol e da amada Gaia para me manter viva.

Ainda assim, hoje, caminhando entre os que me diziam essas mentiras,
Assim, de repente, percebi que somos iguais. Somos idênticos!
Nossas dores dóem igual. Nossos corações disparam frente a um novo amor.
Nossos estômagos se contorcem com a fome e nossos olhos se cansam com o sono.
Contaram a todos nós as mesmas mentiras, com os mesmos argumentos,
travestidos de novos e inovadores.
A ÚNICA diferença entre nós é que eles acreditaram.

Eu não.


sexta-feira, 22 de junho de 2012

O que você quer?

(My Sweet Rose by J.W. Waterhouse)

Madrugada de quinta feira. Acordo de mais um sono acidental lendo um livro. Levanto, apago as luzes, fecho as janelas, aciono o despertador com aquele gostinho de quem queria continuar dormindo mais. Por algum motivo sem motiv, ligo o rádio. O mundo pára. Esqueço que é madrugada, que é quinta feira, que amanhã tenho que acordar cedo. Toda minha atenção de repente se volta para as palavras de Rita Lee que me atingem como uma flecha.  Perco o sono. Ela repete: "O que você quer? O que você quer de verdade?". Desanimo: não sei. Viro pro lado. Rita Lee continua me perguntando. "O que você quer?" Espere aí. Eu me volto de novo para o rádio. Eu sei sim, senhora Ovelha Negra... Em algum lugar dentro de mim, eu sei o que eu quero. Respiro fundo. Onde estou com a cabeça? O que estou fazendo da minha vida? Eu não terei duas. E estou fazendo tudo errado. Minha rotina não preenche meu Ser, mas toda todo meu tempo e energia. Aquela sensação de amargura da vida que nós nos acostumamos a nos acostumar, de repente, começa a minha incomodar. O sono é implacável. O corpo cobra o descanso prometido durante o dia. Quem sabe meu Sonhar não seja interessante... Ilumine meu Caminho... Mas não. Eu não posso esquecer... Preciso anotar... Aonde? 

Ah... Esqueça... Não gosto dessa vida mas não tem jeito, não é? A vida real é assim mesmo... As pessoas trabalham para sobreviver, pagar suas contas, criar seus filhos... Os mais sortudos possuem hobbies aos quais podem se dedicar durante a semana. Você tem vários. Considere-se sortuda e contente-se com isso. Um dia você poderá fazer o que quer. Hoje, você tem que acordar cedo. Durma logo.

Mas Dona Rita insiste... " O que você quer de verdade?". Tem alguma coisa errada... No que é que eu estava pensando mesmo...? Não consigo lembrar... Ah é! Anotar! Anotar o que mesmo...? O que eu quero! Obrigada Santa Rita de Sampa! Nossa... Como estava falando besteira... E quase me esqueci de anotar... "O que eu quero...". Mal terminei a ultima letra e a escuridão do sono já tinha me engolido pra só me devolver pro mundo 3 horas depois, arrancada pelo despertador - mais uma vez, como sempre.

Passam-se os dias, as provas, as contas, as asneiras das salas de aula, dos almoços com os amigos, do chefe e toda aquela ladainha de sempre. Quase esgotada fisicamente decido que é hora de faxinar o apê. Encontro um papelzinho misterioso debaixo da cama. Em letras que mal parecem minhas de tão tortas. "O que você quer?". A Ovelha Negra volta a cantar na minha cabeça. Sinto no peito a lembrança daquela flechada. A faxina acabou. A noite está só começando.

Já até sei... Quando essas flechadas batem, é melhor ter minhas armas à mão: um editor de texto, as aquarelas, os pincéis e as folhas em branco. Nunca se sabe por onde vai vir o ataque. Dessa vez, porém, não veio nada. Só o vazio da noite, o barulho da chuva, o corpo cansado. Tudo igual... Se não fosse essa sensação sutil e insistente de tristeza que desce lenta e imponente nos meus ombros e peito. De repente percebo. Eu sei o que quero. Sempre soube. Só não tinha coragem de olhar pra isso com sinceridade comigo mesma. Sempre foi óbvio. As madrugadas em claro, as músicas, os pincéis, os incensos - e aquela sensação de não-pertencer a nada dos humanos. De ser mais bicho do que gente. De às vezes ser mais morta do que viva. De ser mais Sonho que "realidade". Eu sempre soube. Eu sempre soube "o que eu sempre queria de verdade". Só nunca quis ver.

Agora o tempo cobrava seu preço. A morte se aproxima implacável. E o tempo gasto com isso não volta, não é devolvido nem trocado na loja. De repente, me vem um desespero. Vou largar tudo. Vou partir pra outro mundo. Outra cidade, outro país, outro nome, outra vida inteira. Eu sei que sou louca o suficiente. E se não for, vou virar. É isso. Pego meus pincéis, meus livros, meus incensos, minhas saias e vou pra qualquer lugar. Algum lugar com montanhas... Sul de Minas, sim... Um lugar mágico. Já conheço. Quando meus pais perceberem, já terei ido. Eles sempre souberam que eu era meio maluca mesmo... Talvez se me verem feliz vão me apoiar. Talvez não. Não importa mais. Meu namorado vai me entender, e se bobear, até vai comigo. Também não importa. Já começo a imaginar toda a logística da viagem quando uma presença me interrompe:

- Onde você pensa que vai?
- Não sei. E também, não importa. Sei que estou indo.
- Você não está indo a lugar nenhum. Sabe por que?
- Por que? Um fantasminha camarada da segunda atenção vai me impedir?
- Porque não está indo, simplesmente. Está fugindo. Fugindo como uma condenada.

Ele estava certo. De repente todo o fogo leva um balde de água fria. Novamente sem rumo eu me sentei na beirada da cama. A mesma voz que me perguntava o que eu queria, me dizia que ir embora não era o caminho. De que adianta fugir do que me desagrada? Venho travando a mesma batalha há tanto tempo e agora vou simplesmente abandoná-la? Perder a oportunidade de vencer? De me libertar? Não... Alguma coisa não está se encaixando... Infelizmente, querendo ou não, apenas quando esse lugar, essa egrégora não me causar mais incômodo nem fascínio em nenhum aspecto, apenas então, poderei partir. Aí então, partirei. Não por fuga, mas por uma nova batalha... Compreendi então o que é "saber que se pode morrer a qualquer momento e ainda assim agir como se não soubesse". Um paradoxo de dar nó na cabeça e no estômago. Porém ainda me entristecia saber que o que eu precisava exteriorizar, exorcizar, libertar, continuaria preso... "O que eu queria" continuaria - até que essa batalha se encerasse - continuando apenas isso: algo que queria. Pelo menos até minha outra batalha ter sido ganha, coisa que, pelo jeito, ia demorar. E assim minha noite terminaria... Com mais uma amarga e preciosa lição do Caminho.

Mas Dona Ovelha Negra, novamente, tinha outros planos para mim... E na mesma canção que me causara tanta confusão, me acalenta: "O que você quer estará em você quando você se lembrar. O que você quer estará em você, quando você não se lembrar". Lembrei-me então de uma frase que eu muito já tinha dito a mim mesma "Somos indissociáveis de nós mesmos". Fui dormir tranquila, com o despertador acionado para o tortura diária de sair da cama na manhã gélida do dia seguinte, como sempre. Mas dessa vez, uma paz profunda me embalava o Sonhar. Dessa vez, eu sabia que não importava quanto tempo eles precisassem esperar, meus pincéis e meus incensos não se separariam de mim - e de repente o despertador nem era mais tão cruel assim...




domingo, 17 de junho de 2012

A Sede



Não sabia desde quando, mas eu tinha sede.
Percorria desertos, florestas, cruzava oceanos para saciá-la.
Porém nada parecia conseguir saciá-la de todo.
Ainda assim, eu tinha sede - uma sede incontrolável!

Passou-se uma vida inteira, enquanto eu buscava
Com desespero cada vez maior, alívios momentâneos
Para uma sede que parecia eterna.

E então, mais por casaço que por desesperança, eu desisti.
Simplesmente desisti. Minha sede nunca seria saciada.
Tinha um balde cheio de água cristalina nas mãos,
Ele refletia meu rosto cego de desespero.
Mas coloquei-o no chão - apesar da sede.

Tirei minhas mãos dele, e dei-lhe as costas,
E então, assim, repente,
Senti-me pela primeira vez em muito, muito tempo - leve.
Pela primeira vez, em muito, muito tempo,
Eu reparei no horizonte,
no Sol, no céu, nos Ventos e nas flores.
Havia, de repente, um mundo inteiro ao meu redor.

Então, em um susto de gelar a barriga, eu percebi:
Minha sede havia me libertado!